
Peço licença para falar de um cara que apesar de não ter nascido em Campo Maior, amava esse pedaço de chão. Ali nasceram seus filhos, e dali os viu saírem para o mundo, afinal, filhos ninguém segura.
Foi dali também o último a sair, como se quisesse apagar a luz de seu velho coração, como se deixasse para trás uma parte de si, uma parte de sua história.
Lembro-me, pequeno ainda, indo com ele ao mercado municipal, me segurando pela mão com enorme orgulho, parava para falar com todos que encontrava.
Um cara simples, que gostava de ajudar os outros, esquecendo de si mesmo.
Era um “caiçarino” doente, daqueles que mais apanhava que batia. Certa vez num movimentado jogo entre Caiçara x Comercial, a policia entrou em campo para prender um jogador - acho que era o V8, não lembro bem se era goleiro ou centroavante -, ele interveio. – “Não precisa seu Aureliano, eu pulo o muro!”, disse o jogador. Chuta daqui! Bate dali...! De repente alguém gritou: Olha !!! Era o dito atleta saindo em disparada de encontro a aquele enorme muro, e num repente, dando um salto fenomenal, conseguiu ultrapassar a muralha do estádio, deixando seu Aureliano e a torcida atônitos num alvoroçado grito de viva!!! e assim o fez tendo como encalço a tropa de choque local, que obviamente tiveram que dar a volta pois nem que quisessem, conseguiriam repetir a façanha.
Seu Chico foi tesoureiro da prefeitura na gestão do Prof. Raimundinho Andrade pelo qual tinha grande admiração; zelava pela exagerada honestidade, a qual, com orgulho, nos repassava esses valores - claro que de vez em quando usando o velho cinto e segurando a calça com a outra mão, saia em nossa perseguição, na tentativa de nos mostrar o que era certo. Ainda bem que tínhamos bastante espaço e corríamos para a baixa da égua, pois ele não perdia a viagem!
Tinha também uma incansável tarefa de cuidar dos clubes da cidade, mesmo atrapalhando a sua vida pessoal; afinal, alguém tinha de fazê-lo.
Foi residir em Teresina e depois em Aracaju, sempre ao lado de sua incansável e fiel companheira, dona Didita. Os dois, como grande parte de seus contemporâneos sopraram sementes ao vento, entregaram seus filhos ao mundo, tristes, mas seguros de sua missão. Isso nos fortalece cada vez mais o compromisso de continuar os valores nos ensinado, pois viemos de uma terra que ficou distante, mas estará sempre guardada em um lugar especial de nossa memória.
Meu pai faleceu em Aracaju e hoje, como era de sua vontade, descansa na terra dos carnaubais,lugar que foi cenário de histórias boas, outras tristes, mas com certeza lugar de heróis, artistas, trabalhadores, pessoas que como ele, de alguma forma, contribuíram e fazem parte da nossa história.
William de Sousa - Artista plástico e filho do Sr. Aureliano
Fotos do Álbum de Família: Em cima, "seu" Aureliano almoçando com a família e com uma parte do elenco do "seu" Caiçara. Aqui embaixo, o "apaixonado" caiçarino, o "Fifio" e a Gracinha Torres, seus filhos.