quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Marcos Vasconcelos e a Rua da Lagoa

Foto da velha lagoa que deu nome à rua. Na outra margem, o histórico Sítio São Joaquim.
Um solitário vizinho (Cordeiro) passeia pela margem. 

Era uma rua de casas simples, sem calçamento, cheia de camadas de pedras, refletindo o modesto padrão de vida de sua gente. Larga no começo, estreita no final, como um funil, com iluminação das 18 às 23 horas, horário comum em muitas cidades do Nordeste. Nas chuvas fortes, formavam-se enormes cachoeiras, para suplícios dos moradores. As águas invadiam as casas e corriam rumo às quintas de capim, desembocando na velha lagoa. Quatro pés de momoronas e dois tamarindeiros completavam o cenário natural de nossa morada. Eram o pequeno paraíso de proezas infantis, subindo e descendo galhos e construindo casas de papelão, sem se dar conta de quedas e arranhões.

A Rua da Lagoa tinha uma particularidade: como um recanto privativo, era o mundo dos artífices, muitos dos quais tenho diante dos olhos, como os marceneiros, Germano, Antônio do Monte, Vicente e Sebastião; os alfaiates Antônio Piau, Antônio Dilo, Raimundo Piau, Chico Camilo e, entre eles, meu pai, Manoel Hermógenes Vasconcelos. Nunca esqueci o ferreiro Zumba; o engraxate Lidu; o enfermeiro Machadinho; o sapateiro Vicente e os carpinteiros Zé Miguel e Antônio Cabo, um contingente humano diversificado. Em seus ofícios, eram mestres com freguesias permanentes. As mulheres se ocupavam com afazeres que ajudavam a renda da família. Ninguém se metia a fazer um bolo frito igual ao de D. Mariquinha (mão do Zé Meleira) especialista também em outras iguarias. Como esquecer D. Maroquinha Melo com seus apetitosos bolos de goma? Lembro D. Maria Pinto, mãe do Chico Pinto, exímio fazedor de pipas, e D. França, D. Ciça, seu Joaquim de Raça, seu batista, D. Josefa, D. Rosa Piau, mãe do Edmar, do Depaula e da Elizabeth, amizades que perduram até hoje. Na padaria ou na quitanda do seu Roberto, eu trocava um ovo, ainda quente, colhido da galinha do quintal de casa, por uma broa de trigo, feita com mel de rapadura.

Como se vê, uma rua de pessoas modestas que, à noite, cadeiras nas calçadas, conversavam meio mundo. Sabiam de tudo do seu universo restrito e disparavam a língua nos mal feitos dos outros. Os bem feitos não animavam a conversa, porque a vida alheia sempre foi uma delícia para matar a ociosidade e o tédio.

Marcos Vasconcelos é aposentado do Banco do Brasil, advogado e estudioso de literatura contemporânea. Texto extraído do livro de sua autoria, Raízes de Pedras, onde o autor descreve trechos de sua mocidade na nossa querida Campo Maior.

Marcos Vasconcelos (próximo aos degraus) em frente à casa da rua da lagoa, onde nasceu. A casa não existe mais. Da esquerda pra direita, com os irmãos Maria José, Benedito e Magnólia.

Fotos: MuseudoPaulo&BitorocaraBlog - Arquivo Marcos Vasconcelos.

7 comentários:

Antonio de Souza - De Cuiabá disse...

Essa matéria bateu no fundo da alma. No dia 10 de junho de 1957, eu nasci numa das primeiras casas da Rua da Lagoa - certamente, hoje, ela não existe mais. Lembro muito bem do seu Antonio do Monte: as ligações familiares levaram uma das suas filhas, a professora Altamira, conhecida como "Simira", mulher do grande goleiro do Caiçara, o Coló, a ser minha madrinha de batismo. Quem tempo...
Nettão, o blog continua nota dez.

João de Deus Netto disse...

Marcos, desculpe a intromissão para um recadinho rápido!
Gracinha Torres, Simão Pedro e amigos do saudoso Netinho do Irmão Turuka, lá embaixo, no segundo post do texto do seu mano Simão, tem uma surpresa musical para todos os amantes da boa musicalidade da época. Enquanto isso, curtam o passeio na nossa tradicional Rua da Lagoa, através do belo texto de um saudoso morador.

amaral disse...

maroquinha era o nome de minha mãe, que fazia um bolo assim. se alguém sabe disso é porque frequentava minha casa. era tú, irmão thalibah?

zan disse...

A santa mãezinha que criou esse menino amaral fazendo um bolo assim enquanto deixava ele ler e devorar revistas em quadrinho... eu tive uma avó também chamada maroquinha que morava algumas quadras ali adiante de onde morou amaral com sua santa maãezinha... Era a esposa de "seu" Luis Monteiro, funcionário dos Correios... Da. Maroquinha foi a minha mãe de Leite, e qyabdi nebubi ia sempre lá atrás duns bolinhos e docinhos, e eu a chamava de vó maroquinha... Dei tanto trabalho pra nascer que deixei minha mãe sem condições de me amamentar...

zan disse...

...quadras que eu quis dizer foi algumas "casas"...

Gracinha Torres disse...

Obrigada querido Netto!
Por tudo que faz e escreve.
Beijos.

Anônimo disse...

Eu não conheci a rua da lagoa daquela época, mas meu saudoso pai Antonio de Pádua Vasconcelos conheceu muito bem.

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